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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Soneto - Nuno Júdice

(Imagem:Picasso)

Lábios que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho

que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?

É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,

que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.

domingo, 31 de maio de 2009

Ocaso

(Imagem: Milo Manara)

sem vênia
a mão lúbrica
de veludo afago
transgride.
o úmido beijo
sorve a lágrima
debela a ânsia.
desejo
ardor
volúpia.
Regalos
sobrescrito amor
(à cor do lápis).
tempestade
descaso
olvido.
declina a árvore
demuda temporão o fruto
verte a letra
do verso arco-íris
pálido laivo no céu da pele.
ocaso.


Inês Mota

terça-feira, 7 de abril de 2009

Fragmento de ode - Nuno Júdice

Magritte

Nas cartas que se escrevem e não
chegam ao destino, o que ficou dito
tem o eco do que nunca será
esquecido: a voz que se ouviu numa
paragem do tempo, e atravessa
o centro da memória numa inquieta
procissão de sombras.
Pudessem os arcos do horizonte
abrir-se como um lamento de pombas;
ou este sonho fechar-se com o correr
da cortina de um último acto: nunca
os dedos amados irão soletrar
a frase do crepúsculo, soltando
da sua música um enxame de sílabas.
E o azul enche a garrafa do céu
para que as aves se embriaguem
no púlpito do infinito, arrastando
no seu voo uma cinza de imagens.