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domingo, 31 de maio de 2009

Ocaso

(Imagem: Milo Manara)

sem vênia
a mão lúbrica
de veludo afago
transgride.
o úmido beijo
sorve a lágrima
debela a ânsia.
desejo
ardor
volúpia.
Regalos
sobrescrito amor
(à cor do lápis).
tempestade
descaso
olvido.
declina a árvore
demuda temporão o fruto
verte a letra
do verso arco-íris
pálido laivo no céu da pele.
ocaso.


Inês Mota

domingo, 12 de abril de 2009

Narciso - Gomes Leal

Caravaggio

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia.
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!...
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fonte a suar melancolia!...

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
... lá no fundo do poço em que me espelho!



terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

(imagem by me)



Soneto

Nunes Claro.

Vieste tarde, meu amor. Começa

Em mim caindo a neve devagar...

Morre o sol; o outono vem depressa,

E o inverno, finalmente, há-de chegar.



E se hoje andamos juntos, na promessa

De caminharmos toda a vida a par,

Daqui a pouco o teu amor tem pressa

E o meu, daqui a pouco, há-de cansar.



Dentro em breve, por trás das velhas portas,

Dando um ao outro só palavras mortas

Que rolam mudas sôbre as nossas vidas,



Ouviremos, nas noites desoladas,

Tu, a canção das vozes desejadas,

Eu, o chorar das vozes esquecidas.