Mostrando postagens com marcador rios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rios. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de junho de 2009

Topografia

(Imagem: Milo Manara)

Sabes de cor dos meus livros, de cada página amarelada. Frase a frase, palavras que esquadrinhas com olhos ávidos e dedos ágeis de arguto aluno. Sabes de mim, da minha geografia, geologia e ramos de ciências afins.
Conheces as camadas mais superficiais e mais profundas da pele dos meus vastos continentes. Sabes das minhas terras insulares e úmidas, do meu relevo plano e acidentado em terra e mar.
Sabes como escalar montanhas e montes para descansar exausto nas sombras das encostas.
Sabes do solo macio e quente dos meus desertos e como sobreviver bebendo dos meus oásis que sombreias com tuas palmeiras mãos. Sabes das minhas terras altas, dos meus vales férteis.
Sabes das minhas vibrações sísmicas e das escalas dos meus grandes terremotos. Sabes dos meus vulcões adormecidos e ativos quando queima a lava em ebulição, o fogo líquido.
Sabes das minhas zonas de alta pressão, das brisas  marítimas/terrestres, dos ventos alíseos e de como aqueço os seus minuanos, dos meus tufões, vendavais e tornados.
Conheces a minha hidrografia e os meus lençóis freáticos, todas as minhas águas, frias e cálidas, doces e salgadas. As chuvas calmas e as tempestades.
Conheces os meus abissais oceanos e tsunamis. As minhas correntes quentes e os meus el niño's, minhas praias e a arrebentação das suas ondas de branca espuma na areia. Sabes das minhas cachoeiras e cascatas, das fontes termais e gêiseres.
Sabes dos meus igarapés - açus e mirins -, dos remansos, dos meandros, dos meus rios sinuosos. Sabes dos sons dos seus trajetos, das suas desembocaduras em estuários e fecundos deltas. 
Sabes dos meus plácidos lagos, dos meus cristalinos riachos.
E dos meus silêncios.

Sabes.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Metade Pássaro - Murilo Mendes

Max Ernst

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


In: Melhores Poemas. São Paulo, Global, 2000. p. 43.