quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

MUJER Y GATA
Paul verlaine

La sorprendí jugando con su gata,
y contemplar causóme maravilla
la mano blanca con la blanca pata,
de la tarde a la luz que apenas brilla.

¡Como supo esconder la mojigata,
del mitón tras la negra redecilla,
la punta de marfil que juega y mata,
con acerados tintes de cuchilla!

Melindrosa a la par por su compañera
ocultaba también la garra fiera;
y al rodar (abrazadas) por la alfombra,

un sonoro reír cruzó el ambiente
del salón... y brillaron de repente
¡cuatro puntos de fósforo en la sombra!

Versión de Guillermo Valenc
ia

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


PRIMEIRA TARDE
Arthur Rimbaud
Tradução: Ivo Barroso

Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.

Quase desnuda, na cadeira,
Cruzavas as mãos, e os pequeninos
Pés esfregava na madeira
Do chão, libertos finos, finos.

— Eu via pálido, indeciso,
Um raiozinho em seu gazeio
Borboletear em seu sorriso
— Mosca na rosa — e no seu seio.

— Beijei-lhe então os tornozelos.
Deu ela um riso inatural
Que se esfolhou em ritornelos,
Um belo riso de cristal.

Depressa, os pés na camisola
Logo escondeu: "Queres parar!"
Primeira audácia que se implora
E o riso finge castigar!

Sinto-lhe os olhos palpitantes
Sob os meus lábios. Sem demora,
Num de seus gestos petulantes,
Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."

"Escuta aqui que vou dizer-te..."
Mas eu lhe aplico junto ao seio
Um beijo enorme, que a diverte
Fazendo-a rir agora em cheio...

— Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008




Fruição
Ricardo Sant'Anna Reis

Dormir de lado respirar, amar
olhar para um céu que se azula
assim, sem mais, nem menos...

Ah, quão grandes são
os prazeres pequenos!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


Pétala
Victor Barone

Cai a pétala cara a mim.
Rodopia no ar
criando nuances e cores
de pétala que vai.

É rubra enquanto cai, a pétala
que boiando no ar
tornar-se-á exangue.

Como dói ao olhar
o frenético sangrar
da flor voante.

Como sarar em meu corpo
o perene partir desta cor...?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Florbela Espanca

Realidade

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi..

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sonhando para o Inverno
Arthur Rimbaud

No inverno, iremos num vagãozinho rosa

Com almofadas azuis.
Estaremos bem. Um ninho de beijos loucos repousa
Em todos os cantos macios.

Fecharás o olho, para não ver, pelo espelho,
As caretas das sombras noturnas,
Estas monstruosidades raivosas, grupelho
De lobos negros e demônios soturnos.

Depois sentirás a bochecha arranhada...
Um beijinho vai percorrer, como louca aranha,
De teu pescoço o canto...

E me dirás: "Procura!" inclinando a cabeça,
— E levaremos tempo para encontrar esta possessa
— Que viaja tanto...
Tristezas da Lua

Charles Baudelaire

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer,
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos toma essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no seu peito.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

I've Been Loving You - Otis Redding




Mariposas
Silvio Rodrigues

Hoy viene a ser como la cuarta vez que espero
desde que se que no vendrás mas nunca
he vuelto a ser aquel cantor del aguacero
que hizo casi legal su abrazo a tu cintura.
y tu apareces, en mi ventana
suave y pequeña, con alas blancas
yo ni te miro, para que duermas
y no te vayas.

Que maneras mas curiosas
de recordar tiene uno
que maneras mas curiosas
hoy recuerdo mariposas
que ayer solo fueron humo
mariposas, mariposas
que emergieron de lo oscuro
bailarinas, silenciosas...

Tu tiempo es ahora una mariposa
navecita blanca, delgada, nerviosa
siglos atrás inundaron un segundo
debajo del cielo, encima del mundo.

Así eras tu en aquella tarde, divertida
así eras tu de furibunda compañera
eras como esos días en que eres la vida
y todo lo que tocas se hace primavera
ay mariposa!, tu eres el alma
de los guerreros que aman y cantan
y eres el nuevo ser, que hoy se asoma
por mi garganta.

Que maneras mas curiosas
de recordar tiene uno
que maneras mas curiosas
hoy recuerdo mariposas
que ayer solo fueron humo
mariposas, mariposas
que emergieron de lo oscuro
bailarinas, silenciosas...

Tu tiempo es ahora una mariposa
navecita blanca, delgada, nerviosa
siglos atrás inundaron un segundo
debajo del cielo, encima del mundo.



Un mundo de fruta encendida
Piero



Dançarina Espanhola
Rainer Maria Rilke

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.



When a Man Loves a Woman- Percy Sledge

domingo, 23 de novembro de 2008

Let's do it !!!

Façamos- Elza Soares & Chico Buarque.




Quanto de amor é preciso

Para desentranhar desse rosto

A palavra com sede

A palavra que trará outra vez

A sombra para abaixo das árvores

És assim,

Esse ouvido árido

Esse esquecimento mesquinho

De que a vida é esse momento

Em que te encontro

De que a vida

Ela não pode ser outra coisa

Além de nós dois

Quando estamos juntos

Jamais me traia

Jamais, com a rosa na boca

Entres pelo meu corpo

A confundir os meus traços

E a embaraçar os meus passos

Jamais, com as mãos sobre as folhas

Me descubras sem vestimentas

Para expor minha nudez pálida

Tu sabes que querem de nós

Toda a intimidade

Tu sabes de mim

O que ainda para mim é oculto

Tu sabes o que eu virei a ser

Por isso, jamais me abandones

Com a rosa embaixo do vestido

Presa nas virilhas

Dê-me desse cheiro

Durma-me nesse ventre cheio de frutas

Que vinho novo esse teu buquê translúcido

Te dou de minhas carnes

Para que te embebas

Quando o gozo vier

Como um verão guardado embaixo dos lençóis

Quero ainda teu beijo de chuva fina

Quero seu grito animalesco

Como um pomar que se enche de vida

É assim no teu ventre

Quando confundo nossos seres

E um vento bate na cama

E de repente

Já és uma flor ou uma arma

E eu já sou menino

Brincando

Brincando e brincando


(Rogério B. Andrade)



sábado, 22 de novembro de 2008



Quantas vezes eu assassinei o amor?

Fabrício Carpinejar

O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008




Detener la palabra

Detener la palabra
un segundo antes del labio,
un segundo antes de la voracidad compartida,
un segundo antes del corazón del otro,
para que haya por lo menos un pájaro
que puede prescindir de todo nido.

El destino es de aire.
Las brújulas señalan uno solo de sus hilos,
pero la ausencia necesita otros
para que las cosas sean
su destino de aire.

La palabra es el único pájaro
que puede ser igual a su ausencia.




Déjeuner du matin

Jacques Prévert

Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler

Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder

Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder

Et moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et j'ai pleuré.



quarta-feira, 12 de novembro de 2008


A MEDIA LUZ

Corrientes tres cuatro ocho,
segundo piso, ascensor;
no hay portero ni vecinos
adentro, cocktel y amor.
Pisito que puso Maple,
piano, estera y velador...
un telefon que contesta,
una vitrola que llora
viejos tangos de mi flor,
y un gato de porcelana
pa que no maulle el amor.
Y todo a media luz,
es un brujo el amor,
a media luz los besos,
A media luz los dos...
Y todo a media luz,
crepusculo interior,
que suave terciopelo
la media luz de amor.
Juncal doce veinticuatro,
Telefonea sin temor;
de tarde, te con masitas,
de noche, tango y cantar;
los domingos, te danzante,
los lunes, desolación.
Hay de todo en la casita:
almohadones y divanes
Como en Botica Coco,
alfombras que no hacen ruido
y mesa puesta al amor...
Y todo a media luz,
crepusculo interior,
que suave terciopelo
la media luz de amor.





Tango "A media luz", letra de Carlos César Lenzi, música de Edgardo Donatto, gravação original de Carlos Gardel,composto em 1925.

terça-feira, 11 de novembro de 2008


Desnudos
Efraín Alzate

Desnudos caminamos la playa

y el sol se enamora

de la luna plateada.

Desnudos el jardín nos vigila

y la flor más hermosa

regala su aroma.

Desnudos... el pecado se asoma

por la ventana divina

del amor prohibido.

Desnudos... la piel se sonroja

con la caricia viajera

del deseo infinito.

Desnudos... aparece el pecado

y nuestros cuerpos se entregan

a la pasión sin fronteras.

Desnudos... nos sorprende la aurora

y una leve sonrisa

musita un... te quiero







segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Meu Amor
Chico Buarque

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.


Florbela Espanca
Horas rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas

Ouço as olaias rindo desgrenhadas
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas

Os meus lábios são brancos como lagos
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras

Sou chama e neve branca misteriosa
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

sábado, 28 de junho de 2008

Dá a Surpresa de ser - Fernando Pessoa

Dá a surpresa de ser
(Fernando Pessoa)


Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Deserto - Victor Barone.


Uma flor
Em meio a um deserto de palavras.
Verbo
Em meio à aridez.

Uma gota
Em minha sede de amar

Gesto
Em minha insensatez

Uma nota
Em meio a toda batalha
Som
Em minha surdez

Um ardor
Em minha pele a queimar
Poema
Em minha nudez.

Poema 20- Pablo Neruda


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.
"El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como esta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche esta estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque este sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los ultimos versos que yo le escribo.

Marvin Gaye, Let's Get It On

sábado, 26 de janeiro de 2008

A dança da psiquê
Augusto dos Anjos


A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!

É então que a vaga dos instintos presos
— Mãe de esterilidades e cansaços —
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto...

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!


Isabel Machado

Seios

O branco
todo alvo
realça na pele bronze

No alvo, círculo rosado
ao centro um olho
pedinte, esbugalhado

Todo ele na palma da mão
na tua mão encaixado
faminto se enrijece
sedento pede tua língua
afoito geme ao contato
feito coito alucinado

Os dois são felicidade
nas tuas mãos e cuidados
bichos presos, enjaulados
não querendo liberdade.



Ana de Amsterdam
(Chico Buarque e Ruy Guerra)

Sou Ana do dique das docas
Da compra, da venda, das trocas, das pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos vícios, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã, sou Ana
Da cama, da cana, fulana, bacana, sou Ana de Amsterdam

Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar

Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente das Índias
Sou Ana Oriente, Ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do vaso, do rabo, dos ratos, sou Ana de Amsterdam

Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar

Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos
Na coxa, que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das marcas, das barcas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam.




Elogio do pecado

(Bruna Lombardi)

Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008


Paulo Leminski

Carta pluma

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma

uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você.




Rogério Viana

Haikais

Gula. Ensandecida. Louca
Ela engoliu-me todo
com sua faminta boca.

        Ninfomaníaca.
        Sua demoníaca mania
        me levou do céu ao inferno.
    É devassa essa mulher
    que seu sonhos expõem
    quando abre a vidraça?

Raimundo Correia

Plena nudez

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!


Hilda Hilst

E por que haverias de querer...

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.





Pablo Neruda

O insecto

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!





Luiz Alberto Machado

Tua língua

Tua língua toca minha alma
és o poço das galáxias longínquas
e vejo a lua lindo, cheia, radiante
no céu da tua boca
eu já era a Torre Eiffel
e em meu coração mais batia a vida
Eu te entumesço o rosto
lambuzo teus lábios rubros
enterro-te minha lâmina
no mormaço da tua língua faminta
cresço-me, enrijeço-me, teso
pau madeira-de-lei
acossado pela tua carícia
ah! a tua gula pulsa minha
nos meneios de veludo do teu toque
todos os truques para me capturar
eu e meu míssil dominado
Rara e feita me engole
debruçada sobre o meu cajado
como se fosse a melhor comida
o pico do Aconcágua em transe
buscando a ejaculação constante do meu Etna
com teu faro que desembaínha meus grunhidos
e levita só assim desfalecido
me devolves a vitalidade


Maria Tereza Horta

Poema antigo

O homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio


o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intata
das janelas brancas
com silêncio

ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto

a lua que concebo.


Florbela Espanca é

Horas rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!





Affonso Romano de Sant'Anna é

Intervalo amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?