domingo, 25 de outubro de 2009
Quarto em desordem - Carlos Drummond de Andrade
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.
domingo, 11 de outubro de 2009
Esta Valsa - G. Lorca e L.Cohen
(Imagem:Cristopher Voelker)
A morte
grita
no bosque
com mil
bocas
geladas.
A morte
dança
esta valsa com ondas
azuis de desejo.
A morte
pinta
os telhados
com lírios
brancos
de pranto.
A morte
toca
esta valsa.
Eu quero
morrer
nos teus braços.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Dançarina Espanhola - Rainer Maria Rilke
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Certa Mulher - Murilo Mendes
A linha do horizonte
Passa pelos teus cílios
Tua fonte a inquietação murmura
A alta lâmpada do templo balançou
Porque não brincaste nunca mais com o arco
Nos lânguidos terraços.
A onda vai e volta
Na esperança de te ver
O trevo de quatro folhas
Achou-te.
Estrelas gêmeas suspiram.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Se as minhas mãos pudessem desfolhar - García Lorca
sábado, 5 de setembro de 2009
Achada de Sonhos - Virgilio Brandão
a tarde percorre os brincos e os aromas pétreos
legados — «Se tu viesses ver-me hoje à tardinha»,
diz ela com a voz de poeta, ataviada de jasmins.
Não há hora que não seja assim,
sonho que não crave de mel as memórias
— Oh! Porque as dores ressuscitam
e o amor e as pessoas envelhecem e morrem?
Espera, espera que a tarde não tarda; não.
Traz nas mãos o que não é ferido pelo tempo e vida.
Os espinhos ferem a sua côdea, o seu beijo-abraço
que cedo quer beijar-te, prender-te à eternidade
— acorda!, pois chega com o poema onde estiveres.
E o cansaço de felicidade fenderá o Mundo de sonhos.
E os sonhos serão achadas d'Santo António plurais.
E plurais a essência da ordem prima, a raiz plana
e plena de asas — um gemido te abarca, ó Mundo.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Poema de cama - Victor Barone
Respiro teu perfume
em meus dedos de seda
Me alimento do teu gosto
em meus lábios crispados
Na fina pele
percebo teus gemidos
Na ponta da língua
me abasteço
de você
E o poema nasce assim,
órfão de sentidos
repleto de ti
Se esparrama
como sêmen
sobre a pele incauta
Ocupa o espaço
onde, antes,
nada.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Tristeza da lua - Charles Baudelaire

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.
No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.
Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,
No côncavo das mãos torna essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no peito.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Anjo - Victor Barone
Uma vezum anjo solitário
impregnou meu paladar de luz.
Esteve em minha língua,
por quase uma vida,
este sabor
picante...
Desde então relembro
o terno toque
da língua do anjo
a encher minh'alma
de luz.
Uma vez
um anjo solitário
arrancou de mim o que fui.
Esteve em minha retina
por quase uma vida
este sabor
sangue...
Anjo é parte do livro "Outros Sentidos"- Victor Barone (07/2008)
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Esta é a Forma Fêmea - Walt Whitman
Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.
Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.
Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.
A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Nunes Claro - Soneto
(Imagem: Giovanni Boldini)
Colaborou comigo a Primavera,
Em tudo quanto há tempos te escrevia,
E são da rosa, do lilás, da hera,
Muitos dos versos que te dei um dia.
No meio de uma rima mais severa,
Mais intensa, ou mais cheia de harmonia,
Eu, quantas vezes, me fiquei à espera,
A ver como é que o Sol a acabaria?
As imagens mais altas e formosas
São dele, e são dos lírios mais das rosas,
Da luz da hora toda, em que te vi;
De modo que este amor lindo e distante
Foi o Sol, que te amou por um instante,
O mês de Maio que gostou de ti.













