sexta-feira, 5 de junho de 2009
Estudo nº 6 - Murilo Mendes
Tua cabeça é uma dália gigante que se desfolha nos meus braços
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios
Virei cimento de orvalho da madrugada
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas.
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos
Voltaremos, deixando madréporas e conhas
Obedecendo aos sinais
precursores da noite
Para a grande pedra que as idades balançam á beira-nuvem
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Tristezas da lua - Charles Baudelaire
Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.
No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.
Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer,
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,
No côncavo das mãos toma essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no seu peito.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Canção desse Rumor - Lya Luft In: "Secreta mirada"
Quem deita ao lado meu, quem passa
No meu coração seus lábios quentes, quem
Desperta em mim as feras todas
Quem me rasga e cura
Quem me atrai?
Quem murmura na treva e acende estrelas
Quem me leva em marés de sono e riso
Quem invade meu dia após a noite
Quem vem – estando ausente -
E nunca vai?
domingo, 12 de abril de 2009
Narciso - Gomes Leal
Dentro de mim me quis eu ver. Tremia.
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!
Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!...
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fonte a suar melancolia!...
Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
... lá no fundo do poço em que me espelho!
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Soneto - Angelo de Lima
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento...
Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora.
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da Dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Soneto
Nunes Claro.
Vieste tarde, meu amor. Começa
Em mim caindo a neve devagar...
Morre o sol; o outono vem depressa,
E o inverno, finalmente, há-de chegar.
E se hoje andamos juntos, na promessa
De caminharmos toda a vida a par,
Daqui a pouco o teu amor tem pressa
E o meu, daqui a pouco, há-de cansar.
Dentro em breve, por trás das velhas portas,
Dando um ao outro só palavras mortas
Que rolam mudas sôbre as nossas vidas,
Ouviremos, nas noites desoladas,
Tu, a canção das vozes desejadas,
Eu, o chorar das vozes esquecidas.




