sábado, 28 de fevereiro de 2009

Salvador Dalí

Corte transversal do poema
Murilo Mendes

A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.


In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

3 comentários:

Moacy Cirne disse...

O fundo vermelho ficou ótimo, vibrante, e Salvador Dali e Murilo Mendes são joias preciosas.

Um beijo.

Ines Motta disse...

Moacy. Este é um dos poemas que mais gosto do Murilo. Principalmente porque custo a me convecer que não o escrevi.... Sempre que o leio tenho essa sensação.Penso nele como meu...nos meus devaneios antes de dormir já "vi" essae poema, sim!!! beijos.

Finúrias disse...

"a noite se divide em dois pedaços" sempre, metade de cada um corpo! a acompanhar a bela Fina estampa de Caetano :)